sexta-feira, 15 de julho de 2011

Um título não importa

Ausências em presenças incomodam
Cada silêncio traz a memória o que não se pode esquecer
O instante da lembrança separa o músculo involuntário que pulsa do que é coração
E continuará em paralelo, em suspenso
Precisamente, nunca haverá linguagem esta paranormal
Capaz de se comunicar sem palavras
Se se levar em relevância o ordinário

Não, mesmo que gostemos de acreditar que haja,
Ninguém lhe trará exatamente aquilo de que precisava
Ninguém é capaz de suprir as ausências de ninguém
Ninguém é capaz de ser a projeção do que você tem medo de ser
É muito fardo para um mísero ser humano
É cruel com o outro, fetichizado
É cruel com você, irracional

Quando, em que, onde estará o fio de Ariadne? Não em quem.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O som do coração

Adoro um drama e ontem à noite eu assisti a um dos filmes mais belos que já vi na minha vida, O Som do Coração. Não costumo postar sobre filmes que assisto, mas é que me emocionei ao ponto de chorar, aos que gostam de música sentirão o mesmo. Vim aqui escrever porque acho relevante ressaltar uns pontos: a magia e o encantamento do cinema. Não é uma espécie de filme alienado totalmente da realidade, nos mostra até uma realidade que não gostaríamos que nos fosse apresentada, mas que existe e pior, nem todos tem a sorte de ter um desses finais felizes, sabemos. No entanto a jornada do pequeno Evan nos toca, profundamente, por sua paixão, convicção e confiança, uma fé inexplicável naquilo que ele busca e deseja. Sua habilidade é de dentro, vem da alma, e uma paixão como essa não se controla, transborda, afloraria em qualquer circunstância em que estivesse. Quando terminei de assistir ao filme que não vou contar-lhes a história para não estragá-la, vou apenas lhes dizer que não é porque um filme termina com um final feliz que ele é clichê ou não presta. Queria compartilhar com vocês que às vezes precisamos das artes para nos dar o encantamento que nos falta na vida, a magia que se perde pela crueza do real, não para nos iludirmos, mas para não apagarmos em nós a esperança. Há sim aqueles filmes surreais que fazem parte de uma corja que quer mesmo acabar com a mente das pessoas, mas não deixem por conta desses desacreditemos totalmente em belas histórias que gostaríamos que fossem reais, que até poderiam ser reais. Afinal habilidades todos temos em potência e é verdade uns nascem com um tipo de inteligência mais bem desenvolvida, como o Evan. E se de fato tivermos tanta certeza no que acreditamos nunca desistiremos de lutar por ele e talvez um dia o alcemos, uma coisa é certa não nos faltará a esperança de o perseguir.

um gostinho do filme:http://www.youtube.com/watch?v=44nN72E5JDg (link para o trailer)

sábado, 1 de janeiro de 2011

E que venha 2011

Já teve tempos em que achei desnecessário comemorar a virada do ano, porque inúmeras promessas são feitas e sempre vemos não mudar nada, inúmeras expectativas e nada se modifica, transmuta pra ficar do mesmo jeito, mas aí pensei... Qual o verdadeiro motivo da comemoração da virada? retirando todos aqueles falsos abraços ou confraternizações meia-boca, retirando todas aquelas mensagens de auto-ajuda, paz, amor que só parecem florescer nesses dias em que rumam pra reta final como se fossem um meio de extirpar os pecados íntimos e ficar iludidamente de bem com a consciência. Quando na realidade nada muda, os que são ricos continuam no mesmo lugar de sempre, intocados, e os que são pobres ajudados pela indulgência alheia nesse tempo são até um pouco redimidos, mas não porque os indulgentes saibam que a existência do miserável é inaceitável e consequência do próprio modelo de sociedade que vivemos, mas porque nesse período do ano aquele que lhe sugou tudo quer demonstrar o quanto que é generoso, em toda sua suntuosidade ainda olha para o mais necessitado e o ajuda, nossa quanta aquiescência!!! Mas também é só nesse período do ano, passou-se o dia 1 volta-se a frenética vida de sempre, a real vida neurótica onde o outro é apenas mercadoria a ser explorada. Sem falar em todos os cínicos jogos de poder em inúmeras esferas. Sim mas aí eu penso, qual o real motivo para se comemorar a virada do ano? Sem fraternidades e sensibilidades produzidas por propagandas que visam no final das contas fazer um jabá de suas marcas e produtos ganhando dinheiro perante a infelicidade alheia, sem uma consciência de caridade apenas atrelada a uma recompensa divina, sem falsas promessas, nem otimismos infantis. Recorro à resposta mais óbvia, depois de 365 dias terrenos algumas horas, minutos e segundos, concluímos uma volta inteira ao redor do sol, finda-se a dança cósmica do planeta e inicia-se outra. Há 4,6 bilhões de anos o planeta faz o mesmo percurso, quantas histórias já se iniciaram, findaram e iniciaram e findaram e... dentro desse curso e agora temos mais um ano para persistirmos em outras mais. Enquanto há humanidade, enquanto há a consciência de justiça, enquanto não apagarem a ética, enquanto existam os que não maquiam a verdade e acreditam no valor da sinceridade, enquanto existam os que são solidários com os seus iguais ou não, não apenas impulsionados por discursos forjados, por espiritualismos, mas por não serem omissos com aquilo que veem de errado, enquanto essa chama arder farei parte do Utopia Futebol Clube, sei que encontrarei alguns outros utopianos por aí perdidos em ilhas próximas ou distantes e tendo motivos para acreditar numa virada de ano como um livro inacabado com centenas de páginas por escrever.

sábado, 30 de outubro de 2010

De Mar a Mar e despedidas...

Mar, amor de tantos poetas
Casa mais esta que a ti fez juras de solidão
Sela este brinde com ondas salgadas
Que o doce já não sente o coração

Traga consigo o canto das sereias
Ou teus monstros mais exóticos
Nosso medo tu não alteias

E não sinta de nós pena
Pusemos-nos à deriva por vontade
Mesmo não tendo a alma serena
Basta-nos tanta realidade

Entre tanta correnteza
E Durante as noites mais escuras
A lanterna estará sobre a mesa
A tinta será derramada
O pincel esquecido
A letra borrada
O Caderno preenchido

Esvazia-nos, Mar
Ao mesmo tempo em que nos preenche
Toma o que teu é
E dá-nos em retorno uma nova mente

- Au Revoir!
- Arrivederci!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

02:28

É assim que tudo termina? Tu já sabias, admita!
Por mais que tu não demonstres... Sua consciência é aguçada... é?!
E sim... finja ser forte, todos no final esperam isso
Você sabe que seus ombros poderiam ficar mais leves?
Mas insistes na complexidade, insistes no que não conheces?

Tu querias descobrir os mais adoráveis e terríveis gostos que tem o incerto?
Pois é, agora o prove. Já tens todos os ingredientes?
Não. Ainda faltam mais, porque você não chora...
Tu sabes, as lágrimas não ultrapassam as bolsas que tens nos olhos
Também... são tantas noites sem dormir, elas tem bastante espaço para comportá-las.

Será isso mais uma vez? Sempre estás nas superfícies?
O oceano é ainda maior, muito mais profundo
É no mais escuro azul que toda água fica transparente
E quando a sua respiração te sufoca, quando teu corpo quer mais um fôlego
É aí que saberás onde mora a dor do outro

Não suponha um mundo que não conheces
São imensos os labirintos recorrentes em toda a humanidade
Tu és apenas um espelho dela, não penses que és o único ser a se perder neles
E se é para ser assim, que não o sejas. Exista!
Por que não consegues dizer não?
Toda a sua razão leva a mais sensata resposta

E queres ser sensata? Não completamente?!
Viver apenas racionalmente é viver? Sei, sabes que não,
Só não penses que continuar da forma em que vais, vais a algum lugar,
vais é se perder...
Os caminhos são imensos e eles podem engolir-te
Mas é exatamente isso que queres?
Sabes que é no se perder que vais te achar

Fuja das frases feitas, como a última agora dita.
Muitos mentem, queres também que eu não minta?
Quem tu achas que contam verdades?
Confias no que dizes, completamente? Ou és covarde?

Tenhas na mão um pincel, na cabeça uma imagem e pintarás o que quiseres, certo?
E as pessoas verão o que querem ver, certo?
Completamente errado, subestima-os.
A linha entre o que sustenta uma interpretação e do que se aproxima da realidade é perceptível quando vivenciada por muitos
Achas que isso te diz o que é real?
Viva, reflita, duvide
Quem sabe serás um dos poucos que tomam o caminho contrário.

sábado, 21 de agosto de 2010

Espelhos da alma

Numa noite escura, cinza e silenciosa, em meio a angustiantes nevoeiros provocados não sei se pelo tempo ou se mesmo pelo embaçado dos meus olhos, não se era possível visualizar qualquer forma que estivesse a mais de uns cinqüenta metros de distância. No entanto, surgia caminhando em minha direção uma sombra não muito grande, esperei a aproximação inevitável, afinal, os nossos caminhos se entrecruzavam, minha tensão do momento se desfez após o desvendar do encontro, era apenas um cão que caminhava no centro do negro e brilhoso asfalto iluminado pelas poças d’água a luz da lua. Parei para ver a figura de pelos cinzas e brancos, vistosos, sua aparência era extremamente bela, bela como um idoso que parecia resguardar inúmeros passados não confessados. Mas, nunca havia visto um olhar e semblantes tão tristes, andava com a cabeça baixa como se carregasse o peso do mundo nas costas, caminhava e apenas seguia sem direção, só andava enquanto havia forças para continuar e nenhuma distração para lhe envolver. Fui esfregar meus olhos só pra não ter dúvidas de que via miragens, fantasmas, ou se não era eu mesma que criava aquela figura, no entanto só me restou o nada e minha forma agachada com o olhar fixo no chão numa daquelas poças que refletiam a lua, as estrelas e ao lado do meu rosto um cão de alma rasgada que agora estava dentro das minhas retinas. Calafrios tomaram meu corpo inteiro, despertei de um sonho, ainda à noite, com os pés frios tocando o chão do quarto, espirros como de costume, caminho entre o sono, o sonho e a realidade até o banheiro lá onde tudo se desfaz e novamente somos despertados para o nosso cotidiano, mais ou menos sem ânimo lavando o rosto, mas evito o espelho sei que há algo nos olhos que não quero que nem mesmo eu os veja. Os olhos... é lá que não conseguimos esconder nada, palavras são ótimos disfarces, mas como já dizem, mas não sei quem, olhos são espelhos da alma e os outros os decifradores dela, para isso um menifesto às cegueiras momentâneas: que se fechem os olhos, se abram os ouvidos e se acentuem os sabores das dúvidas.

sábado, 27 de março de 2010

Da brisa, de um pássaro e do livro desencapado

Ao vagar em certo lugar, ao menos isso sei, que chamavam devaneios e ao encontrar ali poucos obstáculos, dei-me conta de estar numa imensa sala de paredes ricamente adornadas com inúmeras estantes de madeira de lei repletas de livros. Ao discorrer o meu olhar pela suntuosa sala, vi de relance no canto esquerdo e no fim da última prateleira certamente algo que destoava ao organizadíssimo e harmonioso acervo. De fato a sua utilidade fôra drasticamente minimizada, no momento só servia de escora para que os outros não saíssem de seu milimétrico espaço minuciosamente pensado pelo colecionador de capas. Com certeza seu tempo ali já estava mais do que ultrapassado, bastaria que a estupefata ambição do colecionador descobrisse outra bela capa a qual se encaixasse perfeitamente com as formas, tons e cores de seu acervo para que com brevidade fosse substituído. Caso não tenha ficado claro, a coleção da qual relato é de livros e pasmada fiquei ao notar que o interesse do surreal lugar era mesmo o citado, apenas as capas pouco importava o teor das páginas. Então, após essa mínima sondagem feita aos umbrais, fui ouvir o que o tal livro desencapado tinha a relatar, pois fiquei um tanto irrequieta ao saber que a principal regra do lugar era de nunca, jamais, nem por um segundo, deixar os livros abertos para que assim suas capas pudessem ser absolutamente conservadas a fim de que nada fosse modificado. Aproximei-me de leve, ainda mais leve do que costumo ser e como quem nada quer do tal livro fui cuidadosamente escutar os sussurros sufocados os quais depois também se revelaram a mim sufocantes dado o angustiante estado no qual se encontrava e do peso de suas confissões, estava mais do que no lugar errado. Ao conversar, disse-me que já não agüentava mais estar sempre preso ao mesmo lugar e escutar sempre as mesmas ladainhas que se esvaíam em superficialidades e em julgo de aparências, ansiava em um desespero aterrador que alguém se interessasse por palavras e por significados, a ele pouco importava-lhe a capa o que mais desejava era saber o que estava por detrás dela. Sabia que já havia passado pelo mesmo que esses tantos, já valorou por demais os títulos, sub-títulos, as artes das imagens que vestia até que pelo acidental rasgo de um espelho perdeu sua roupa e viu-se despido em palavras, palavras essas que diariamente tinham o poder de o conflitar ou pacificar, o preencher ou esvaziar, podiam também aprisionar, no entanto eram as combinações e confrontações de letras, palavras, idéias e interpretações que mais tarde o guarnecia de um âmago de liberdade, mas sentia falta de poder externá-la. O que mais ansiava era que no lugar reservado a intocável coleção uma ventania revirasse tudo no lugar, levasse consigo todas aquelas capas a fim de que não só ele experimentasse o novo das novas palavras e do reboliço que as novas junções de idéias poderiam trazer a todos os outros daquele lugar tão tolhidos por suas visões direcionadas, insuficientes e instantâneas, tão ligadas a irrelevantes superficialidades. Infelizmente, senhor pássaro, sinto lhe frustrar, não sei como ficou o livro, não pude saber do desfecho desse casual encontro, pois não marquei o caminho de retorno, fui levada às pressas para as revoltas ondas e não soube como voltar. Contudo ainda espero que algum dia ainda ouça de outros ventos o que aconteceu por lá.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Parolagens

Passam os tempos escorregando pelas horas
Os dias continuam os mesmos
As pessoas continuam as mesmas
Insistência nos mesmos...
Erros? Acertos? Quem os diz que são?
E por que devem ser vistos como um ou outro?
Por que julgamos tanto?


Às vezes se é melhor não pensar em nada
Apenas contemplar as águas que saem sabe-se lá donde
Chegam sabe-se lá por quê
E não se vão


Já desisti de querer entender descaminhos
Há o que não se tenha explicação,
Mas não posso dizer que as aceito
Essas não explicações, não compreensões
Por isso persiste a dúvida
Mas o pior é o silêncio da resposta
São como chuvas em setembro.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Algumas considerações sobre o direito à comunicação (Parte I)

"A comunicação entre pessoas e seus meios na sua dimensão interpessoal e coletiva, através do uso da palavra, estruturadora da linguagem, por sua vez concretizadora do discurso, funcionou como um fio condutor para a afirmação da humanidade como um grupo de animais que sente, pensa, intercambia subjetividades, AGE E REAGE na relação com o outro e com a natureza, formando uma teia de pensamentos e aconteciemntos construída entre CONSENSOS E CONFLITOS."

Raimunda Aline Lucena Gomes.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Pesadelo

O que há em seus olhos que os deixam cinza, criança?
Cinzas do Mar de irrealidades
Cinzas da crença irredutível
Cinzas da não-dúvida
Cinzas do silêncio

Pra onde você está olhando agora?
Você está aqui?
Não, não está
Aliás não está em nenhum lugar... no nada

Nada e busca emergir desse turbilhão que te tem afogado
Cadê as suas forças?
O que você busca?
Você desistiu?

Pense
O mar é seu, criado por você
Aprenda que o viver é isso
Decisões e conseqüências são uma só
Reflita sempre, sempre, sempre, criança

Não temos uma segunda chance no ato
Só poderá ser feita uma escolha
E esta é irredutível
Já aconteceu? Não se pode voltar?
Cresça, criança, cresça!

Já não existem somente risos espontâneos
Já não existem choros translúcidos
Nem olhos em cores expressivas
Vamos, veja se você consegue

Emirja. Logo! Vamos! Não há tempo!
Não há tempo
Já está mais do que tarde
Já é tempo de acordar

quinta-feira, 26 de março de 2009

Conhecendo-me

Percebi que detesto meias de palavras, meias de conversas, meias de “verdades”. São meias que muitos vestem para encobrir o que deve ser transparente, são meias deixadas ao meio por isso incompletas, já fui assim decidi que não serei mais. Não achem que de mim tudo conhecem da mesma forma não conheço todos por completo, somos imensos mais do que podemos tocar, ver, existem outros de nós que até nós desconhecemos ou fazemos questão de não conhecer. Talvez uns prefiram esconderijos, eu já não sei se isso de fato auxilia em algo, só deva frustrar, entristecer, deixar turvas as águas que os regam e que com o passar das horas deformam o rosto. Qual o problema em deixar que os pés sintam? Que sintam a terra, a pedra, o sol ao meio-dia, a sombra, a água, o refrescante e não só isso que sintam as dores dos machucados que de vez em quando por distração ou mesmo por não conseguir enxergar entre as horas mais claras acontecem. É importante que não sigamos as rotas principais sempre, não há humor, aprendizado, História se não houver desvios. Que eu ande por aclives que tanto nos custam as forças apenas para ter o privilégio de poder deleitar-se em belíssimas paisagens até cansarem os olhos ou sentir o abraçar do vento como se pudéssemos ser levados por ele sem previsão de rota ou chegada. Ou por declives constantemente enfrentados, contudo não definitivos nem ao menos demérito, se é trilhado um caminho sem retornos não veremos as mesmas paisagens sempre e nem por isso deixarão de nos presentear com memórias que nos causam distintas sensações e quando relembro dou boas risadas sabendo que não mais a percorrerei; o que importa é a existência e sim elas existiram, só não as encobrirei de auto-piedade. Se fiz é responsabilidade minha, se é comigo que acontece ou eu que provoquei assumo. Que mal há?

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Parolagem da Vida - Carlos Drummond de Andrade



Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Nosso Tempo Carlos: Drummond de Andrade

I

Este é tempo de partido,

tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,

viajamos e nos colorimos.

A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.

Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.

As leis não bastam. Os lírios não nascem

da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.

Onde te ocultas, precária síntese,

penhor de meu sono, luz

dormindo acesa na varanda?

Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo

sobe ao ombro para contar-me

a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.

As coisas talvez melhorem.

São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.

Tenho palavras em mim buscando canal,

são roucas e duras,

irritadas, enérgicas,

comprimidas há tanto tempo,

perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Este é tempo de divisas,

tempo de gente cortada.

De mãos viajando sem braços,

obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.

E o vestido vermelho

Vermelho

cobre a nudez do amor,

ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.

Guerra, verdade, flores?

Dos laboratórios platônicos mobilizados

vem um sopro que cresta as faces

e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina

o sucedâneo da estrela nas mãos.

Certas partes de nós como brilham! São unhas,

anéis, pérolas, cigarros, lanternas,

são partes mais íntimas,

a pulsação, o ofego,

e o ar da noite é o estritamente necessário

para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.

Tempo de mortos faladores

e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,

mas ainda é tempo de viver e contar.

Certas histórias não se perderam.

Conheço bem esta casa,

pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,

a sala grande conduz a quartos terríveis,

como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,

conduz à copa de frutas ácidas,

ao claro jardim central, à água

que goteja e segreda

o incesto, a bênção, a partida,

conduz às celas fechadas, que contêm:

papéis?

crimes?

moedas?

o conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador urbano,

ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,

moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,

pessoas e coisas enigmáticas, contai,

capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;

velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;

ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da costureira, luto no braço, pombas, cães errântes, animais caçados, contai.

Tudo tão difícil depois que vos calastes...

E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,

de boca gelada e murmúrio,

palavra indireta, aviso

na esquina. Tempo de cinco sentidos

num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,

de céu neutro, política

na maçã, no santo, no gozo,

amor e desamor, cólera

branda, gim com água tônica,

olhos pintados,

dentes de vidro,

grotesca língua torcida.

A isso chamamos: balanço.

No beco,

apenas um muro,

sobre ele a polícia.

No céu da propaganda

aves anunciam

a glória.

No quarto,

irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço

na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.

As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.

Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!

Os subterrâneos da tome choram caldo de sopa,

olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.

Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,

mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.

O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.

Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.

Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,

vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,

toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.

Homem depois de homem, mulher, criança, homem,

roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,

homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem

imaginam esperar qualquer coisa,

e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,

últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,

já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.

Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,

o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,

com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,

escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,

errar em objetos remotos e, sob eles soterrado sem dor,

confiar-se ao que-bem-me-importa

do sono.

Escuta o horrível emprego do dia

em todos os países de fala humana,

a falsificação das palavras pingando nos jornais,

o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,

os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,

a constelação das formigas e usurários,

a má poesia, o mau romance,

os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,

o homem feio, de mortal feiúra,

passeando de bote

num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família,

orquídeas e opções

de compra e desquite.

A gravidez elétrica

já não traz delíquios.

Crianças alérgicas

trocam-se; reformam-se.

Há uma implacável

guerra às baratas.

Contam-se histórias

por correspondência.

A mesa reúne

um copo, uma faca,

e a cama devora

tua solidão.

Salva-se a honra

e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos

para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,

dores de classe, de sangrenta fúria

e plácido rosto. E há. mínimos

bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,

lesões que nenhum governo autoriza,

não obstante doem,

melancolias insubornáveis,

ira, reprovação, desgosto

desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.

Há o pranto no teatro,

no palco? no público? nas poltronas?

há sobretudo o pranto no teatro,

já tarde, já confuso,

ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,

vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,

vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,

e secar ao sol, em poça amarga.

E dentro do pranto minha face trocista,

meu olho que ri e despreza,

minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,

que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta

declina de toda responsabilidade

na marcha do mundo capitalista

e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas

promete ajudar

a destruí-lo

como uma pedreira, uma floresta,

um verme.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Saiba ( Arnaldo Antunes)

Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem

Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu

Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar

Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano

Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé Moisés Ramsés Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé

Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Tocando em frente ( Renato Teixeira)

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte
Mais feliz quem sabe eu só levo a certeza
de que muito pouco eu sei
Nada sei
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pára poder sorrir
É preciso chuva para poder florir
Sinto que seguir a vida seja simplesmente
Conhecer a marcha, ir tocando em frente.
Por um velho boiadeiro levando a boiada,
Eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou,
Estrada eu sou.

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor para poder pulsar
É preciso paz para poder sorrir
É preciso chuva para florir
Todo mundo ama um dia
Todo mundo chora, um dia a gente chega.
E no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua própria historia
E cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz...

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs.
É preciso amor para poder pulsar
É preciso paz para poder sorrir
É preciso chuva para florir
Sinto que seguir a vida seja simplesmente
Conhecer a marcha ir tocando em frente.
Cada um de nós compõe a sua própria historia
E cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Cheio, vazio, enchendo-se outra vez aos poucos

Um dia aprendo

Um dia desperto

Um dia vivo

Um dia morri

E morro buscando

Mesmo sabendo que nada mais há

Para que se encontre

Aliás nunca houve

Aí esqueço-me das horas

Desligo o despertador

Apago as letras do caderno

As velas do candelabro

Fecho os olhos

Vou para longe

Estradas indesbraváveis

Escuras

Paro

Levo algum tempo no bolso

No momento eles não correm

Dobro as palavras

O que ouvi mastigo

E transformo em um pouco de mim

O que li jogo nos meus cestos

Balaios de palavras

E as conservo

O que não falei ou não percebi

Arrependo-me

Mas os deixo a mercê da memória

No arquivo morto junto aos dados

Dados da sorte que nunca me sorri

Volto

Ando até o mar

Sento numa pedra

Sussurro os meus segredos

Faço dele meu confessionário

E com o nada segredos seguem

Para lugar nenhum

Essas minhas histórias emudecem

Sobrepõe-se o som do mar

Depois se dispersam, mas não somem

Acordo

Levanto

Desmonto

Castelos de areia não duram para sempre

Areia aos olhos incomodam

Água se passa

Olhos se abrem

Luz reaparece

Recomeço

De outra maneira

Tudo seca e se refaz

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Como os nossos pais (Elis Regina)

Não quero lhe falar meu grande amor

das coisas que aprendi nos discos

Quero lhe contar como eu vivi

e tudo que aconteceu comigo

Viver é melhor que sonhar

eu sei que o amor é uma coisa boa

Mas também sei que qualquer canto é menor

do que a vida de qualquer pessoa

Por isso cuidado meu bem,

há perigo na esquina

Eles venceram e o sinal está fechado

prá nós que somos jovens

Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua

É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz

Você me pergunta pela minha paixão

Digo que estou encantada com uma nova invenção

Eu vou ficar nesta cidade,

não vou voltar pro sertão

Pois vejo vir vindo no vento

o cheiro da nova estação

Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração

Já faz tempo eu vi você na rua

cabelo ao vento, gente jovem reunida

Na parede da memória essa lembrança

é o quadro que dói mais

Minha dor é perceber

que apesar de termos feito tudo que fizemos

Ainda somos os mesmos e vivemos...
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais

Nossos ídolos ainda são os mesmos

e as aparências não enganam não

Você diz que depois deles

não apareceu mais ninguém

Você pode até dizer que 'eu tô por fora

ou então que eu tô inventando'

Mas é você que ama o passado e que não vê

É você que ama o passado e que não vê

Que o novo sempre vem

Hoje eu sei que quem me deu a idéia

de uma nova consciência e juventude

Tá em casa guardado por Deus

contando vil metal

Minha dor é perceber

que apesar de termos feito

tudo, tudo, tudo que fizemos

Nós ainda somos os mesmos e vivemos...
Ainda somos os mesmos e vivemos...
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais!

sábado, 8 de novembro de 2008

Intrigadas interrogações

Assim como tudo se expande, mas em algum momento se contrai ou contrair-se-á, assim como todos os planetas voltas dão, mas em algum momento passam pelo mesmo lugar sei que (re)visito diversas idéias carregadas do mesmo significado dado a séculos. Não sei se isso é bom ou ruim, o que é bom ou ruim? Como saber qual o certo ou o errado? Se o que é certo para mim pode ser o errado para você ou o contrário. Como atingir uma verdade plena se nunca ninguém nos revela tudo o que sabe, só conhecemos aquilo que as pessoas querem nos mostrar e nem sempre essa vitrine é verdadeira. Até mesmo essas palavras, essas que acabo de escrever, estão passíveis de outras interpretações que não sejam as que eu gostaria de transmitir depende da intenção do leitor, do que busca o leitor nessas breves palavras, nisso eu tenho que concordar. Como encontrar o sincero então, como achar os raros, aqueles que são o que são e não o que dizem ser? Eles existem? Onde se encontram? Como descobri-los?

No momento vejo que estou sem ter onde apoiar-me, a cegueira cessa, mas me encontro em caminhos de fumaça, em mar bravio, numa nau sem velas. Qual será a sinalização necessária para que encontre em meio a neblina o visível? Joguem-se cordas, cordas de conhecimento, joguem-se palavras que tentarei decifrá-las, quem sabe eles serão a saída, se é que saída existe. O quê existe? O que é de fato real nesse mundo de farsas?



Dúvidas, duvidas? Divida-as

Hermético achas? Ou não compreendes?

Nem precisa

São devaneios

Digressões que possuem contexto, mas no momento não os explico

Omito

Não importa também, o quê importa?

São tantas as prioridades

Aliás quais virão primeiro?

As prioridades das prioridades, será possível?

Tentemos uma encontrar:

Vida penso.

Que vida tenho? Qual vida aspiro?

Vida é vida oras não é preciso caracterizá-las

E nem há uma que se sobreponha a outra e possua mais significado

Pois são singulares e plurais simultaneamente

Mas é preciso escolhas

Quais as certas?

Nunca sei, nunca saberei

Quando vejo já fiz e não o contrário quando fizer verei.

O que me resta

O presente, o ato, o sujeito na voz ativa

Cansei de quimeras

Caso contrário vida não há

Farsa haverá

A certeza que tenho é da certeza que não possuo

Que não quero possuir

Que não me possui

Intrigo-me de tantos, de tantas

Mas poucos em mim ficam

E de mim se hospedam

Ou eu os quero em mim

Sim e por que não a morte?

Será a morte o fim ou o começo?

Será a morte morte ou morte a vida?

A vida começará da morte certamente e não o contrário

E se pensar um pouco normalmente é assim

Matamos nossos medos

Nossas antigas crenças iludidas

E nada será como antes

Nada mais estará imóvel

Tudo viverá

E como vivem se transformam

Crescem assim como eu

Já não sou a mesma de ontem

Certamente amanhã também já mudei


Durma, medo meu ( O Teatro Mágico)

Todo o chão se abre
No escuro, se acostuma
Às vezes a coragem é como quando a nova lua
Somos a discórdia
E o perdão
E nos esquecemos da cor que tinha o céu, assim
Como a saudade
Ou uma frase perdida
Durma, Medo Meu
Durma, Medo Meu
Hmmm, não
Às vezes um "não sei"
Janela, madrugada, luz tardia
E o medo nos acorda
Pára e bate o coração
Em pura disritmia
O medo amedronta o medo
Vela, madrugada, dia, assim
Como a saudade
Ou uma frase perdida
Durma, Medo Meu
Durma, Medo Meu

Amadurecência ( O teatro Mágico)

Senhoras e sem dores
Bem vindos ao Teatro Mágico

Parto
Parto...
A poesia prevalece
A poesia prevalece

Primeiro senso é a fuga.
Bom na veradade é o medo,
dai entao a fuga.

Evoca-se na sombra uma iquietude,
uma alteridade disfarçada
inquilina de todos nossos risos.

A juventude plena e sem planos se esvai.

O parto ocorre.
parto-me
parto-me
parto-me
parto-me

Aborto certas convicções
a bordo deminios e munias
Flagelo-me
Exponho cicatrizes

E acordo os meus com muito mais cuidado,
muito mais atenção
E a tensão que parecia nunca não passar,
o ser vil que passou para servir para disservir,
harmonizar o tom, movimento som

toda a terra que devo do ar
todo o voto que devo parir
não dever ao de vir,
nunca deixar de ouvir

com outros olhos...
com outros olhos...
com outros olhos...